Abandonada
De novo ao volante do Aston Martin, de regresso ao oeste, fui obrigada a um esforço enorme para me manter atenta à estrada. O estado de quase estupefacção em que fiquei ao acordar mal tinha sido atenuado pelo café duplo engolido à laia de pequeno almoço. Quando não vi vestígios do Fokas no quarto e percebi que apenas uma cama estava desfeita, mal quis acreditar. Seria verdade o que mal conseguia imaginar? E, se fosse, ter-me ia aquele sacana abandonado assim?
A maldita da história estava a repetir-se, mas desta vez eu não tinha culpas no cartório. Nem sequer sabia o que tinha acontecido.
Quando chegámos à Pousada, deixara o Fokas no quarto, certa de que, como previamente combinado com uma das criadas, todas as bebidas e snacks no mini-bar tinham sido contaminadas com um poderoso soporífero. Já que aquele era o único quarto disponível, por ser Ano Novo e a Pousada ter sido tomada por espanhóis da raia, não estava disposta a surpresas nem a ter que tomar medidas inesperadas para evitar os avanços daquele sedutor de film noir. Que o tipo me perturbava, era verdade, mas eu não queria mais homens na minha vida. Pelo menos por enquanto. Tinha passado muito pouco tempo desde que…
Mas voltando ao que interessa, depois de ter confirmado pela janela que o meu carro ainda se encontrava lá, liguei para o telemóvel da Tokyoska e fui atendida pelo “Old Spice”. Contei-lhes que o Fokas tinha desaparecido e, em troca, fui informada de que, para além de já o saberem, tinham encontrado a boquilha e, dentro dela, o microfilme.
— Microfilme? Que microfilme?
— Não te faças de parva, Philbin. O microfilme que tinhas escondido dentro da boquilha. Aquele que continha os documentos sobre o AnTonis e a sua ligação à Máfia Russa.
— Vê lá como é que falas comigo, ó espiãozinho da treta. Não sei de nada.
— Pois, pois. Mete-te mas é no pópó e volta para Lisboa. Precisamos de ti aqui. E não te demores.
Desliguei e passei uma hora num delicioso banho de espuma. Nada como uma aguinha quente para lavar a alma e aliviar o corpo. E a acreditar no que poderia ter acontecido naquela noite, bem precisava. Caraças, será que já não podia confiar em ninguém?
Primeiro, tinha estado a rir-me com a Tokyoska e o “Old Spice” no bar da Pousada a imaginar a cara do Fokas quando percebesse que tinha sido drogado e que as suas intenções em relação a mim tinham saído goradas. E, afinal, os gajos estavam feitos com ele e eu é que me tramara. Em segundo lugar, a história do microfilme. Não tinha sido eu a pô-lo lá e eu nunca a largara desde o dia em que me fora oferecida. E a única pessoa que poderia ter tido acesso a ela fora… quem ma dera. Na noite que passáramos juntos e em que ele me deixou sozinha no Hotel, em Sintra. Exactamente da mesma forma que o Fokas me deixara agora… A história repetia-se mesmo mas, desta vez, a sensação não foi de abandono e irremediabilidade. Foi de pura traição.
À saída da Vasco da Gama, lembrei-me subitamente de que era a Philbin, a filha do almirante, e de que, por isso mesmo, não ia deixar palhaço nenhum mandar em mim. Nem fazer-me de parva. Precisam de mim em Lisboa? Que esperem. Virei à direita e dirigi-me a Norte. Vinha cheiro a esturro daqueles lados e eu queria estar lá para assistir.
Continua, por Fokas, em Noche Buena.
3 Respostas para 'Abandonada'
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em Janeiro 12, 2008 em 7:04 pm
Excelente continuação!
Mas acho que tudo isto se vai complicar… hehehehe
em Janeiro 12, 2008 em 8:06 pm
Maggie,
Estou a ser mal entendido, o que é normal quando se trata de assuntos de saias… Mas acontece que estou preocupado com a Elora e o seu estado de saúde mental. A miúda não saí de casa a não ser para comprar pizzas e anda-se a enfrascar à noite no bar da Laguna.
Quanto a ti..tem cuidado com o pedal porque as estradas para o Norte são perigosas. E não te meta na boca do lobo, muito menos sózinha num armazem em Matosinho que ainda estragas o teu lindo avatar. Depois não me digas que não te avisei.
em Janeiro 30, 2008 em 11:14 am
Não estranho o cheiro a esturro proveniente da área Norte… será ke foi deta ke incendiaram o sítio ? hehehehe