As Nossas Crónicas


Caderninho

Publicado em FICÇÃO, HISTÓRIAS, ROMANCE, baralhar, crónicas por Margarita no / na Janeiro 15, 2008

As decisões precipitadas, filhas legítimas de um mau génio que devo ter herdado da minha mamma
siciliana, têm frequentemente os resultados mais inesperados, e dei por mim a ter que sair da auto-estrada em Vila Franca sob pena de vir a ter que empurrar o carrinho por ali fora. Na estação de serviço, aproveitei para ir à casa de banho enquanto um rapazinho vestido de campino e de olhos esbugalhados me atestava o depósito. Ao passar por mim, uma criatura avantajada, usando uma t-shirt com as letras AJC cruzou-se comigo e, para evitar o contacto com aquela barriga proeminente e aqueles braços arrepiantemente peludos, dei um salto para o lado, acabando por rasgar o vestido na porta. Começava bem, este ano, estava a ver que sim.

Ao procurar na mala uma roupa para me mudar, descobri o motivo de toda aquele esquema engendrado pelos meus supostos amigos: roubarem-me o famoso caderninho. Então ele era isso, tudo pelo mais precioso e secreto bem da Philbin.

Tolos. Mal eles sabiam que havia dois e que o que me tinham roubado não era mais que aquele onde tomava as notas do que queria comprar sempre que ia a uma passagem de modelos ou via uma revista de moda. Andava sempre comigo, até para não perder o rasto aos meus conjuntos preferidos. De depósito cheio e roupa impecável, meti-me ao caminho, não sem antes ter enviado uma mensagem em resposta a um telefonema do Fokas que, obviamente, não atendi.

“Fokitas…és um querido, mas meninos como tu… como eu ao pequeno almoço! Assinado Philbin”

Alguns quilómetros à frente, nova tentativa do pinga-amor e, curiosa para conhecer a explicação daquele estratagema todo, atendi-o.

— Maggie, Maggie, desculpa-me. Fui obrigado.

— Em primeiro lugar, depois do que me fizeste não me chamas Maggie. Aliás, vais explicar-me bem explicadinho tudo o que aconteceu ou sabes o que te faço. Já ouviste falar do outro, não ouviste? Que ficou sem os…

— Err, err… Mas Maggie, sabes que te amo e que nunca te faria mal.

— Já fizeste! Eu quero o caderninho de volta ainda hoje. E não estou a brincar. Onde é que tu andas?

— Estou em Barrancos.

— Então pega nesses pés e desata a correr. Encontramo-nos em Leiria, às seis. Não digas a ninguém. Sei coisas sobre a Elora. Queres ou não queres encontrar a miúda? Ah, traz o caderninho e pode ser que não te arranque nada.

Sabe bem ter um homem assim nas mãos. Murmurou um “Sim, Maggie” e eu tive a certeza de que não falharia nem por um segundo. Coitado, se eu lhe tivesse dito que o caderninho roubado não tinha qualquer importância e que o verdadeiro estava escondido em lugar seguro no carro… Mas estes segredos não se revelam e ninguém tinha que saber que todos os dados que tinha sobre o caso Elora estavam bem guardados. Eu não tinha um Aston Martin só para dar nas vistas. Tinha herdado aquela preciosidade da Guerra Fria do paizinho, que o tinha recebido de presente de um riquíssimo armador grego como paga de um favor. O pópó, como o Old Spice lhe chamara, estava todo artilhado e possuía tecnologia tão avançada para a época que se mantinha actual.

Baixei a capota e voltei a entrar na auto-estrada.

Continua, por Fokas, em Melampus.

2 Respostas para 'Caderninho'

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  1. Fokas disse,

    Magggie,

    Já não estou em Barrancos…vou almoçar com os velhotes e depois jantar com a Mermaid à Nazaré! Quanto ao caderninho…não te preocupes que está em boas mãos! Impossível ir até Leiria esta tarde! Desculpa …mas a vida é assim!

  2. Fokas disse,

    Maggie,

    Não entendo que me tenhas desligado o telemóvel na cara… Estás-te a portar como uma menina mimada…o que não te fica nada bem!Mas adiante… Se quiseres vir até à Nazaré, vais-me encontrar na praia mais tarde ou mais cedo…
    Claro que quero saber o que me tens a dizer sobre a Elora. Mas o caso dela, para mim está arrumado. As Manas foram claras! O Tp toma conta dela (ou o padre..) e para mim o assunto está encerrado! Eu quero é que a miúda seja feliz!
    Tenho outros assuntos graves para tratar. A June telefonou a dizer que têm a casa cheia de marroquinos acampados no quintal… e está em pânico! O Ibra tem a ASAE à porta, por causa do negócio das pipocas, e infelizmente temos mais um caso difícil para resolver num monte de uma Mariposa qualquer. Uma gaja louca depois de ter feito um curso de reiki, foi fazer um BTT na serra do Caldeirão sem paraquedas e ninguém sabe do paradeiro dela…
    Bjs


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