Monte dos Vendavais – I
Arrependi-me da cena no momento em que saí a porta do tasco. Aquele Fokas afectava-me mesmo, raios. A mim, que tinha decidido eliminar os homens da minha vida de uma vez por todas. Maldito Sítio, maldito vento que ao bater-me no rosto me espevitou a consciência e, simutaneamente, os sentimentos que vinha a tentar esconder. Infelizmente, o meu mau génio tinha estragado tudo mais uma vez e, para resolver a situação, teria que passar pela humilhação de lhe pedir desculpa. Tinha que arranjar forma de não ter que o dizer por palavras.
Dei a volta e pespeguei o pópó à porta do tasco, em sentido contrário para o lugar do condutor ficar mesmo a jeito. Esgueirei-me como pude para o assento do passageiro, abri a porta e estendi as chaves com a mão assim que o vi assomar à ombreira. Homem nenhum ia resistir àquilo.
O Fokas inclinou-se, espreitou e desatou às gargalhadas.
— És tramada, tu. Primeiro, fazes cenas, e depois tentas subornar-me com um carrito? Vai ser preciso muito mais que isso, Philbin.
— Vá lá, Fokas, estive a beber, e temos mesmo que ir ter com a Elora. Eu cumpro o prometido e ficamos juntos no hotel, na Ericeira.
— Ah, olha para ela tão mansinha agora. Ericeira? Vens tarde, a Elora está muito mais longe. E só vou aproveitar a oferta porque se faz tarde e não é todos os dias que se conduz um bicho destes e também na condição de me contares a história da boquilha. E sem mentiras, estás a ouvir? Se sonho que estás a mentir, paro o carro, sais e ficas onde ficares.
Quando dei por ela, já estávamos a descer do Sítio, eu ainda demasiado invadida pela raiva por mim própria para poder dizer alguma coisa que não fosse pedir ao Fokas para ter cuidado com o carro do paizinho.
— Pois, disfarça! Pensas que sou o quê? Ou quem? Conheci muito bem o teu pai, minha menina. E agora começa a abrir a boquinha, porque a história deve ser comprida e eu quero saber tudo quando chegarmos à Vidigueira. Vá lá, confessa, de onde é que veio a boquilha?
(continua)