As Nossas Crónicas


Rumo ao Sul

Publicado em baralhar, crónicas por Fokas em Março 12, 2008
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Eram para ai sete e picos, oito e coisa, quando chegamos ao Monte dos Vendavais. Tive que acordar a Philbin com jeitinho para não começar logo de manhã a ouvi-la aos gritos… A festa na casa fantasma estava para durar…Música e luzes acesas, risos e gritos, arrastares de cadeiras e na piscina,  a “Perfect day” a começar!

 - Maggie, chegámos! Vou entrar pela porta da cozinha, imagino que estará apenas alguém a lavar a loiça ou quando muito a fazer café!

- Está bem…Fokas…deixa-me mais uns minutinhos…vai sim! Sim…vai andando…até já!

A Philbin mal virei as costas voltou a adormecer colada ao vidro do Austin Martin do paizinho…estava lixado… teria mais uma vez que actuar sozinho. O “Stairway to heaven” a tocar e a voz do “Peixe pró gato” com uma voz já bem aviada…

 

- Fokas…estás-me a ouvir??? Fokas!!! Estás-me a ouvir man ??? Temos novo cenário! ouve com  calma e atenção! O assunto é sério! O nosso Primeiro enviou um SMS aos gajos do GMRP para libertarem “a Doutora que têm sempre razão”, em troca, uns lugares importantes na administração da CGD para os chefes e para os outros…o comando de uma missão militar na Geta! A tua amiga Elora acabou de ser nomeada “Senhora Ministra”!!! A ministra Afro parece que mandou o nosso Primeiro à merda! Grande confusão que vai em Lisboa! A noite aqui tem sido de bar aberto e de grande festival!!! Estão uns gajos a escrever já o discurso de posse… vão acabar imediatamente com as aulas de substituição. Os putos vão para casa aprender matemática racional e executar operações do terceiro grau em lindens sem o auxílio de máquinas de calcular!  Os Profs. de Mat vão assumir o controle dos conselhos directivos de todas as escolas do país…é a revolução no ensino em marcha. A tua amiga pelos vistos não só canta bem como encanta! O “Old Spice” e a “Tokyoska” estão na festa em fase final de negociações e mandaram-me dizer que não te querem ver nem de perto nem de longe pelas redondezas.

- Estás a gozar comigo! Só podes estar…A Elora, ministra???

- É melhor bazares daqui o mais depressa Fokas…. digo-te eu!  A Elora já disse que se te vir aqui, vais beijar os pés do M2! Vou desligar… tenho que ir servir o “champagne” na piscina ao pessoal! Sabes que eu até estou a simpatizar com a miúda? Grande mulher!!! Tinhas razão….mas agora faz-me o favor, desaparece por uns tempos! e desligou… o animal. 

   

- Não durmas agora – disse eu sacudindo a Philbin brandamente. – Escuta o que aconteceu, ao lado do que tu já sabias. A Elora é ministra!! Tenho instruções para seguir para o Algarve. Com a nova ministra, deram o caso por encerrado. Queres vir? A June e o Ibra estão à nossa espera… 

Monte dos Vendavais – II

Publicado em ROMANCE, crónicas por Margarita em Março 3, 2008

— E é logo pela boquilha que queres que eu comece… És tramado, Fokas. Mas eu conto, porque to prometi.

— Eu, como já deves saber, até porque afirmas que conhecias o paizinho, vivi uma vida de marinheiro. Cada porto, cada nova paixão, sabendo sempre que ao levantar das amarras deixaria ali mais um coração despedaçado com a minha partida. Mas nunca me importei, sabia bem ser idolatrada daquela maneira, além do que a protecção incondicional dos marinheiros que me acompanharam a vida inteira estava garantida. Até que um dia, há mais ou menos dois anos, as coisas mudaram.

— Porquê, foi ele que te deixou e soubeste o que era amargar um abandono?

— Não, Fokas, foi a primeira vez e a última que me entreguei realmente, com consequências esmagadoras para mim.  Conheci-o no bar de um hotel, em Cádiz, uma vez que lá aportámos. Era mesmo a minha cara. O que me atraiu mais foi ele ser meio italiano, como eu. Uma questão de empatia imediata. Quando dei por mim, o quarto em que estava não era o meu e tive a noite mais incrível da minha vida.

— Mas se foi só uma noite porquê essa história toda? Pelos vistos era o costume, não? Seduzires um tipo para o abandonares na manhã seguinte…

— Não, Fokas, aí é que está. Pela primeira vez, pedi ao paizinho para me dar umas férias do navio, deixando-me ficar em Cádiz. Depois logo voltaria para Lisboa. A primeira semana que lá fiquei foi maravilhosa, nunca me tinha sentido tão presa a alguém. Depois ele começou a receber telefonemas e a ter que sair de repente, deixando-me sozinha muitas vezes. Mas voltava sempre, até ao dia da boquilha. Ofereceu-ma durante o jantar, uma boquilha lindíssima que nunca mais deixei até ao dia em que jantei contigo. Naquela noite esmerou-se, apenas para me deixar sozinha na cama e nunca mais voltar. Por coincidência, houve nesse dia um atentado bombista em Espanha e eu tive quase a certeza de reconhecer a roupa dele num dos feridos. Como nunca soube mais dele que o nome próprio, nem nunca me lembrei de perguntar, nunca tive certezas de nada, e voltei para o navio, donde nunca mais saí em porto nenhum a não ser para o estritamente necessário até o paizinho morrer.

— Bem, miúda, isso é que é ter azar. Mas olha, se calhar foi castigo, por teres feito o mesmo a tantos outros.

— Cala-te, Fokas, não achas que já sofri o suficiente? Acelera e vamos mas é procurar a Elora.

O resto da viagem passei-o a dormitar. Voltar a falar naquilo tinha-me cansado. Despertei quando o Fokas me deu um leve abanão, já à porta do Monte, onde reinava a confusão.