As Nossas Crónicas


Monte dos Vendavais – II

Publicado em ROMANCE, crónicas por Margarita no / na Março 3, 2008

— E é logo pela boquilha que queres que eu comece… És tramado, Fokas. Mas eu conto, porque to prometi.

— Eu, como já deves saber, até porque afirmas que conhecias o paizinho, vivi uma vida de marinheiro. Cada porto, cada nova paixão, sabendo sempre que ao levantar das amarras deixaria ali mais um coração despedaçado com a minha partida. Mas nunca me importei, sabia bem ser idolatrada daquela maneira, além do que a protecção incondicional dos marinheiros que me acompanharam a vida inteira estava garantida. Até que um dia, há mais ou menos dois anos, as coisas mudaram.

— Porquê, foi ele que te deixou e soubeste o que era amargar um abandono?

— Não, Fokas, foi a primeira vez e a última que me entreguei realmente, com consequências esmagadoras para mim.  Conheci-o no bar de um hotel, em Cádiz, uma vez que lá aportámos. Era mesmo a minha cara. O que me atraiu mais foi ele ser meio italiano, como eu. Uma questão de empatia imediata. Quando dei por mim, o quarto em que estava não era o meu e tive a noite mais incrível da minha vida.

— Mas se foi só uma noite porquê essa história toda? Pelos vistos era o costume, não? Seduzires um tipo para o abandonares na manhã seguinte…

— Não, Fokas, aí é que está. Pela primeira vez, pedi ao paizinho para me dar umas férias do navio, deixando-me ficar em Cádiz. Depois logo voltaria para Lisboa. A primeira semana que lá fiquei foi maravilhosa, nunca me tinha sentido tão presa a alguém. Depois ele começou a receber telefonemas e a ter que sair de repente, deixando-me sozinha muitas vezes. Mas voltava sempre, até ao dia da boquilha. Ofereceu-ma durante o jantar, uma boquilha lindíssima que nunca mais deixei até ao dia em que jantei contigo. Naquela noite esmerou-se, apenas para me deixar sozinha na cama e nunca mais voltar. Por coincidência, houve nesse dia um atentado bombista em Espanha e eu tive quase a certeza de reconhecer a roupa dele num dos feridos. Como nunca soube mais dele que o nome próprio, nem nunca me lembrei de perguntar, nunca tive certezas de nada, e voltei para o navio, donde nunca mais saí em porto nenhum a não ser para o estritamente necessário até o paizinho morrer.

— Bem, miúda, isso é que é ter azar. Mas olha, se calhar foi castigo, por teres feito o mesmo a tantos outros.

— Cala-te, Fokas, não achas que já sofri o suficiente? Acelera e vamos mas é procurar a Elora.

O resto da viagem passei-o a dormitar. Voltar a falar naquilo tinha-me cansado. Despertei quando o Fokas me deu um leve abanão, já à porta do Monte, onde reinava a confusão.

2 Respostas para 'Monte dos Vendavais – II'

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  1. Elora disse,

    A boquilha! Quem seria o misterioso italiano?

  2. Fokas disse,

    Hoje da Crónica do Lobo Antunes na “”Visão”
    “…Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer-me nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega…
    “…Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou sou parvo. Segundo a minha irmã sou só parvo. A propósito de tudo e de nada
    - És um parvo! “


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