Maio
Havia e há em todas as famílias segredos que nunca podem ser divulgados.
O “existir-para” significa um empenhamento emocional com o Outro antes de nos comprometer de vez. E nesse espaço do “não dito” ( em que o leitor determina o seu próprio itinerário sem o mais pequeno auxílio…) é que as coisas se complicam…
Baralhando e dando de novo….Klara Allen tinha duas filhas lindíssimas e cultas. Klara tinha transmitido às duas, aquele sentimento de superioridade alemão que as resguardavam de encontros inesperados e pouco saudáveis com a pseudo elite intelectual portuguesa. As moças eram conhecidas pelas freiras da Ericeira…
Klara Allen abria apenas a sua casa a famílias com consagrados pergaminhos para as suas tertúlias culturais. O sarau passavasse normalmente no salão da casa iluminado por um lustro esplendoroso onde as meninas, deliciavam aos convidados com as seus talentos e generosas graças. Isabella a mais velha era uma exímia pianista e a mais nova Esperanza, mais dada à literatura e à poesia.
Foi numa noite de Primavera que na companhia do Jovem oficial que tive oportunidade de entrar pela primeira vez em casa de Klara que nos recebeu com toda a gentileza. O apelido Greenwood e a minha amizade com os Bates ajudavaram obviamente…
- Fokas Greenwood? Que engraçado…tem família na Grécia? Conheci em tempos uma família Fokas em Salónica, judeus sefarditas, excelentes pessoas e gente muito distinta. São seus parentes? O comendador é um homem charmoso e a sua esposa…como é que se chama…sim…Júlia…Julieta…sim, a Julieta… uma senhora deliciosa. Riquíssimos e muito educados.
Apanhado de surpresa, hesitei e respondi sem pensar… sim são meus tios-avós…de S. Brás de Alportel. (Confundirem-me com um grego, nesta fase do campeonato… era o pior que me podia acontecer). – Mas fixaram-se na Grécia há uns anos…os negócios..e a política sabe…
(To be continued in http://tagus.wordpress.com/ )
Working class hero
Tags: baralhar, crónicas, fokas, Ibrahim, SL
Março é um mês terrível para ir até ao Algarve! Chove muito e os ingleses tomam banho em Albufeira, despejam grades de cerveja com a boca cheia de camarão! Mas serviço é serviço… e brincar com o Coronel Bates, sabia já eu por experiência própria… era pior do que colocar as mãos na brasa!
As minhas ligações com o MI5 ( Portuguese section) datavam do Verão quente de 75, quando andava a vender pulseiras de missangas em frente ao Casino de Armação de Pera. Dias de calor imenso e de grandes ganzas, apaixonado pela irmã do Zé Pedro, um dos meus companheiros de noites de praia. Adormecíamos ao som psicadélico do “Atom Heart Mother” e dos Doors…. e távasse mesmo bem.
Uma manhã bem cedo… fomos acordados por dois homens de blusão de couro e com armas na mão. Olhei em volta e verifiquei que os meus companheiros ainda dormiam….Ia haver cena se ainda houvesse alguma coisa para fumar…o que francamente duvidava. A noite tinha sido longa e fixola, divertidos a jogar à forca, desporto intelectual de grande nível… com os nomes dos vocalistas de bandas de rock . Quem era a vocalista que começava por N…que dormia com o baterista? Dois nomes V…U…O Zé P. que nessa altura já era roqueiro ganhava quase sempre. – Nico!!!! Respondia sem hesitar!!! E assim se passavam as horas…entre mais um charro e novas gargalhadas!
O pai do famoso Coronel Bates, tinha comprado uma propriedade em Silves onde normalmente passava as suas férias. O filho mais velho, o jovem e brilhante oficial, matemático de carreira, possuía da parte da mãe, sangue sefardita e tinha vivido toda a sua juventude em Marrocos. Dominava o inglês e o árabe como ninguém. O pai, o famoso arabista W. H. Bates tinha já uma longa relação com os serviços secretos britânicos desde os tempos de Casablanca. O filho acabou naturalmente por seguir-lhe os passos. Foi ele quem delicadamente, com a arma na mão, me dirigiu a palavra. – Tudo bem por aqui? Os teus amigos ainda estão a dormir?…grande noitada! Fazem bem… quando era mais novo também gostava de dormir na praia!. Olha lá ó John Lennon dos Olivais…viste alguma coisa estranha na praia? Esta madrugada…barcos…carga…não deves ter visto nada…claro!
- Não…respondi com algum receio…não se passou nada…pelo menos não vi nada de estranho! E duvido que tivesse havido alguma coisa…estivemos a noite toda aqui!
O oficial…baixou a 9 mm e sorriu… Sim, tens razão, a praia estava vigiada! Mas se por acaso te lembrares de qualquer coisa…o meu nome é Bates….Ibrahim Bates! O teu é?
- Fokas…Greenwood e estes são todos meus amigos.
- Sim…sabemos muito bem quem são os teus amigos…
(à suivre…)
Rumo ao Sul
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Eram para ai sete e picos, oito e coisa, quando chegamos ao Monte dos Vendavais. Tive que acordar a Philbin com jeitinho para não começar logo de manhã a ouvi-la aos gritos… A festa na casa fantasma estava para durar…Música e luzes acesas, risos e gritos, arrastares de cadeiras e na piscina, a “Perfect day” a começar!
- Maggie, chegámos! Vou entrar pela porta da cozinha, imagino que estará apenas alguém a lavar a loiça ou quando muito a fazer café!
- Está bem…Fokas…deixa-me mais uns minutinhos…vai sim! Sim…vai andando…até já!
A Philbin mal virei as costas voltou a adormecer colada ao vidro do Austin Martin do paizinho…estava lixado… teria mais uma vez que actuar sozinho. O “Stairway to heaven” a tocar e a voz do “Peixe pró gato” com uma voz já bem aviada…
- Fokas…estás-me a ouvir??? Fokas!!! Estás-me a ouvir man ??? Temos novo cenário! ouve com calma e atenção! O assunto é sério! O nosso Primeiro enviou um SMS aos gajos do GMRP para libertarem “a Doutora que têm sempre razão”, em troca, uns lugares importantes na administração da CGD para os chefes e para os outros…o comando de uma missão militar na Geta! A tua amiga Elora acabou de ser nomeada “Senhora Ministra”!!! A ministra Afro parece que mandou o nosso Primeiro à merda! Grande confusão que vai em Lisboa! A noite aqui tem sido de bar aberto e de grande festival!!! Estão uns gajos a escrever já o discurso de posse… vão acabar imediatamente com as aulas de substituição. Os putos vão para casa aprender matemática racional e executar operações do terceiro grau em lindens sem o auxílio de máquinas de calcular! Os Profs. de Mat vão assumir o controle dos conselhos directivos de todas as escolas do país…é a revolução no ensino em marcha. A tua amiga pelos vistos não só canta bem como encanta! O “Old Spice” e a “Tokyoska” estão na festa em fase final de negociações e mandaram-me dizer que não te querem ver nem de perto nem de longe pelas redondezas.
- Estás a gozar comigo! Só podes estar…A Elora, ministra???
- É melhor bazares daqui o mais depressa Fokas…. digo-te eu! A Elora já disse que se te vir aqui, vais beijar os pés do M2! Vou desligar… tenho que ir servir o “champagne” na piscina ao pessoal! Sabes que eu até estou a simpatizar com a miúda? Grande mulher!!! Tinhas razão….mas agora faz-me o favor, desaparece por uns tempos! e desligou… o animal.
- Não durmas agora – disse eu sacudindo a Philbin brandamente. – Escuta o que aconteceu, ao lado do que tu já sabias. A Elora é ministra!! Tenho instruções para seguir para o Algarve. Com a nova ministra, deram o caso por encerrado. Queres vir? A June e o Ibra estão à nossa espera…
E quando as nuvens partirem…
Tags: baralhar, Elora, Philbin, SL
A Philbin de repente desapareceu aos círculos, a transbordar de cerveja e percebes, e enfiou-se numa casa de banho bem manhosa como é hoje todo o “Sítio”… já agarrada a um telemóvel topo de gama retirado com um passe de mágica daquela blusa vermelha, de um peito sem soutien…
Era altura de eu pedir a conta e encerrar a estória triste de um caderninho idiota…altura certa… porque tinha também o meu a tocar aos berros o “Stairway to heaven”!!!
- Fokas…é o Ramirez, pá!… Estou com a miúda que andas à procura na “Adega Velha” a servir copos de poejo! Está com malta de Reguengos que conheço há anos…. Parece drogada com medronho … mon… em Mourão a cantar completamente desafinada o “Je ne regrette rien”…! Uma cena do caneco acompanhada pelo Zé das Escorinhas que ainda julgava estar em Paris a trabalhar na “poubelle”!
- Ramirez???…tens a certeza que é a Elora??? – Não queria acreditar no que o Ramirez me estava a contar. Mas sabia que Elora aterrara de paraquedas recentemente naquela região… Podia muito bem ser ela!
- Sim…mon… parecida com a tua descrição…tipo Blimunda…óculinhos …pá! Poucas mamas e boa bunda! Deve ser a tua gaja… Fokas!
- Ramirez !!!..ouve-me bem…não larges os gajos agora…eu vou ter contigo logo que possa. Conheces o “ VilaVelha”…o restaurante ali mesmo na praça, no centro da Vidigueira? Arma-te em “finol” e convida toda a gente! Telefona também para o Prof. e reserva o monte dos Vendavais para os gajos ficarem à vontade nos copos e nas cantorias… Apanhamos o grupo todo lá…
- És mesmo um estupor de avatar Fokas…não sei porque tenho andado a perder tanto tempo contigo!!! (A Philbin tinha-se sentado ao meu lado a rir como uma tonta!) Julgavas que levavas a filha do almirante para a Ericeira sem mais nem menos? És um ingénuo e um parolo sem futuro! Bem me dizia o paizinho para nunca me meter com espiões rascas, muito menos com detectives de 3ª classe!!! Sabes o que me apetece fazer? …e sem esperar uma resposta… encaixei mais duas bofetadas da Philbin, em frente de toda a gente no café… e fiquei estúpido a olhar para o céu… a ver se as nuvens se disssipavam…
Tempo
O tempo é sempre relativo. Se temos pressa, o seu correr parece-nos lento. Se estamos à vontade, sobra sempre. A caminho da Nazaré, pela auto-estrada e a uma velocidade inadvertidamente estonteante, era-me de certo modo indiferente a hora a que iria chegar, apesar de ter combinado aquele encontro com o Fokas e de querer resolver o assunto de uma vez por todas.
Depois da última vez, tinha tomado a firme decisão de não me voltar a envolver com ninguém, mas os recentes desenvolvimentos, a par das desconfortáveis sensações de fragilidade que o Fokas me causava, faziam com que não tivesse vontade nenhuma de o reencontrar. Mas ele tinha um dos meus preciosos caderninhos e isso era para mim ainda mais importante.
O que continha as informações sobre todo o caso Elora estava, no entanto, comigo. Mas este caso tinha confusão a mais para poder ser resolvido só por mim e, apesar de tudo o que tinha acontecido, já só confiava no Fokas. Parecera-me sincero quando disse que o tinham obrigado a fazer o que fez para me roubar o caderninho. De qualquer forma, e apesar de ainda ir precisar dele, um dia pagaria por isso, e bem caro.
O tempo é mesmo relativo. Pouco tinha andado desde a última paragem e porém houvera espaço para recordar toda a última semana, pormenorizadamente: as reuniões com o Old Spice em casa da Poulana após a notícia do desaparecimento da Elora, o Réveillon, a noite na pousada, a traição… Apenas em alguns minutos, recapitulei dezenas de factos, conversas e acontecimentos… Somando tudo, o resultado era assustador e a Elora corria verdadeiro perigo.
Enquanto virava na saída de Santarém, porque a minha natureza de marinheira me deu uma vontade súbita de seguir a estrada junto ao mar , recordei o que sabia sobre a personagem… Jovem, cheiinha, ruiva e, sobretudo, inteligente. Brilhantemente inteligente, apesar de algum mau feitio residual, a que todos os que são verdadeiramente geniais estão sujeitos e aos quais tudo perdoamos, de tão fascinados.
Não acreditava ainda que tivesse sido atraída para uma armadilha, pois dificilmente se deixaria surpreender; antes pelo contrário, teria confundido os facínoras de tal maneira que estes desistiriam do seu projecto, quanto mais não fosse com as surpreendentes bebidas que preparava. Não, a Elora fora apanhada à traição e isso significava que corria muito perigo, principalmente porque eu desconfiava que tal não se devia se não a um estratagema preparado para apanhar outra pessoa, fazendo dela moeda de troca. E essa pessoa, tinha, ao que eu sabia, uma dupla identidade, e tinha sido casado com a Elora. Descobrira-o numa velha revista de cabeleireiro, em que identificara a jovem noiva Elora pela cor flamejante do seu cabelo e pela exuberância do seu perfil. Radiosa como qualquer noiva, destilava felicidade, apesar do arco-íris que pairou no céu durante toda a cerimónia e que anunciava, certamente, chuva. O noivo, sempre de óculos escuros, era discreto e descobri, pelas legendas das fotografias, que se chamava Lourenço, nome que viria a ouvir mais tarde, debaixo de grande secretismo, em casa da Poulana.
O tempo é verdadeiramente surpreendente e, todas estas incursões sobre os segredos da Elora demoraram-me apenas o tempo de chegar pela Estrada Nacional até São Martinho do Porto. Digna filha de um marinheiro, eu tinha, como todos os dessa classe, a fama de deixar um amor em cada porto. A fama e o proveito, pois não houve cais em que o navio atracasse em que não deixasse um amor de cabeça perdida. Não que eu os procurasse, mas acabava sempre por claudicar nos braços de um ou outro nativo mais afoito e bem-falante. E, certa da protecção do paizinho, pouco me importavam as ameaças sempre que tinha que partir.
Apesar de não ser um porto digno do nome, São Martinho era um local onde eu costumava atracar durante as férias, e também o local onde deixei atracado o meu coração. Foi lá que conheci aquele que um dia mais tarde me viria a abandonar e cujo nome não me atrevo sequer a repetir. Não querendo sucumbir às dolorosas recordações, acelerei dali para fora, ao encontro do Fokas.
Quando há tempo, as distâncias são muito relativas e dei por mim já na Nazaré, muito antes da hora marcada. Arrependida da minha fuga repentina daquela baía cheia de recordações, optei pela estrada que me afastava do centro e dirigi-me ao Sítio, onde tencionava, para além de olhar uma vez mais para o horizonte que tantas vezes tinha admirado ao luar confortavalmente protegida da nortada por certo abraço inesquecível, matar a sede e comer qualquer coisa. Nada como uns percebes e uma imperial para acalmar as dores de um estômago cujo conteúdo se reduzia a um café duplo, bebido há muitas horas atrás. Estacionei e dirigi-me à cervejaria mais próxima.
Caderninho
As decisões precipitadas, filhas legítimas de um mau génio que devo ter herdado da minha mamma
siciliana, têm frequentemente os resultados mais inesperados, e dei por mim a ter que sair da auto-estrada em Vila Franca sob pena de vir a ter que empurrar o carrinho por ali fora. Na estação de serviço, aproveitei para ir à casa de banho enquanto um rapazinho vestido de campino e de olhos esbugalhados me atestava o depósito. Ao passar por mim, uma criatura avantajada, usando uma t-shirt com as letras AJC cruzou-se comigo e, para evitar o contacto com aquela barriga proeminente e aqueles braços arrepiantemente peludos, dei um salto para o lado, acabando por rasgar o vestido na porta. Começava bem, este ano, estava a ver que sim.
Ao procurar na mala uma roupa para me mudar, descobri o motivo de toda aquele esquema engendrado pelos meus supostos amigos: roubarem-me o famoso caderninho. Então ele era isso, tudo pelo mais precioso e secreto bem da Philbin.
Tolos. Mal eles sabiam que havia dois e que o que me tinham roubado não era mais que aquele onde tomava as notas do que queria comprar sempre que ia a uma passagem de modelos ou via uma revista de moda. Andava sempre comigo, até para não perder o rasto aos meus conjuntos preferidos. De depósito cheio e roupa impecável, meti-me ao caminho, não sem antes ter enviado uma mensagem em resposta a um telefonema do Fokas que, obviamente, não atendi.
Alguns quilómetros à frente, nova tentativa do pinga-amor e, curiosa para conhecer a explicação daquele estratagema todo, atendi-o.
— Maggie, Maggie, desculpa-me. Fui obrigado.
— Em primeiro lugar, depois do que me fizeste não me chamas Maggie. Aliás, vais explicar-me bem explicadinho tudo o que aconteceu ou sabes o que te faço. Já ouviste falar do outro, não ouviste? Que ficou sem os…
— Err, err… Mas Maggie, sabes que te amo e que nunca te faria mal.
— Já fizeste! Eu quero o caderninho de volta ainda hoje. E não estou a brincar. Onde é que tu andas?
— Estou em Barrancos.
— Então pega nesses pés e desata a correr. Encontramo-nos em Leiria, às seis. Não digas a ninguém. Sei coisas sobre a Elora. Queres ou não queres encontrar a miúda? Ah, traz o caderninho e pode ser que não te arranque nada.
Sabe bem ter um homem assim nas mãos. Murmurou um “Sim, Maggie” e eu tive a certeza de que não falharia nem por um segundo. Coitado, se eu lhe tivesse dito que o caderninho roubado não tinha qualquer importância e que o verdadeiro estava escondido em lugar seguro no carro… Mas estes segredos não se revelam e ninguém tinha que saber que todos os dados que tinha sobre o caso Elora estavam bem guardados. Eu não tinha um Aston Martin só para dar nas vistas. Tinha herdado aquela preciosidade da Guerra Fria do paizinho, que o tinha recebido de presente de um riquíssimo armador grego como paga de um favor. O pópó, como o Old Spice lhe chamara, estava todo artilhado e possuía tecnologia tão avançada para a época que se mantinha actual.
Baixei a capota e voltei a entrar na auto-estrada.
Continua, por Fokas, em Melampus.
Abandonada
De novo ao volante do Aston Martin, de regresso ao oeste, fui obrigada a um esforço enorme para me manter atenta à estrada. O estado de quase estupefacção em que fiquei ao acordar mal tinha sido atenuado pelo café duplo engolido à laia de pequeno almoço. Quando não vi vestígios do Fokas no quarto e percebi que apenas uma cama estava desfeita, mal quis acreditar. Seria verdade o que mal conseguia imaginar? E, se fosse, ter-me ia aquele sacana abandonado assim?
A maldita da história estava a repetir-se, mas desta vez eu não tinha culpas no cartório. Nem sequer sabia o que tinha acontecido.
Quando chegámos à Pousada, deixara o Fokas no quarto, certa de que, como previamente combinado com uma das criadas, todas as bebidas e snacks no mini-bar tinham sido contaminadas com um poderoso soporífero. Já que aquele era o único quarto disponível, por ser Ano Novo e a Pousada ter sido tomada por espanhóis da raia, não estava disposta a surpresas nem a ter que tomar medidas inesperadas para evitar os avanços daquele sedutor de film noir. Que o tipo me perturbava, era verdade, mas eu não queria mais homens na minha vida. Pelo menos por enquanto. Tinha passado muito pouco tempo desde que…
Mas voltando ao que interessa, depois de ter confirmado pela janela que o meu carro ainda se encontrava lá, liguei para o telemóvel da Tokyoska e fui atendida pelo “Old Spice”. Contei-lhes que o Fokas tinha desaparecido e, em troca, fui informada de que, para além de já o saberem, tinham encontrado a boquilha e, dentro dela, o microfilme.
— Microfilme? Que microfilme?
— Não te faças de parva, Philbin. O microfilme que tinhas escondido dentro da boquilha. Aquele que continha os documentos sobre o AnTonis e a sua ligação à Máfia Russa.
— Vê lá como é que falas comigo, ó espiãozinho da treta. Não sei de nada.
— Pois, pois. Mete-te mas é no pópó e volta para Lisboa. Precisamos de ti aqui. E não te demores.
Desliguei e passei uma hora num delicioso banho de espuma. Nada como uma aguinha quente para lavar a alma e aliviar o corpo. E a acreditar no que poderia ter acontecido naquela noite, bem precisava. Caraças, será que já não podia confiar em ninguém?
Primeiro, tinha estado a rir-me com a Tokyoska e o “Old Spice” no bar da Pousada a imaginar a cara do Fokas quando percebesse que tinha sido drogado e que as suas intenções em relação a mim tinham saído goradas. E, afinal, os gajos estavam feitos com ele e eu é que me tramara. Em segundo lugar, a história do microfilme. Não tinha sido eu a pô-lo lá e eu nunca a largara desde o dia em que me fora oferecida. E a única pessoa que poderia ter tido acesso a ela fora… quem ma dera. Na noite que passáramos juntos e em que ele me deixou sozinha no Hotel, em Sintra. Exactamente da mesma forma que o Fokas me deixara agora… A história repetia-se mesmo mas, desta vez, a sensação não foi de abandono e irremediabilidade. Foi de pura traição.
À saída da Vasco da Gama, lembrei-me subitamente de que era a Philbin, a filha do almirante, e de que, por isso mesmo, não ia deixar palhaço nenhum mandar em mim. Nem fazer-me de parva. Precisam de mim em Lisboa? Que esperem. Virei à direita e dirigi-me a Norte. Vinha cheiro a esturro daqueles lados e eu queria estar lá para assistir.
Continua, por Fokas, em Noche Buena.
A Viagem de Fred
Tags: a viagem de fred, fred, marga, palup, summer
Enrolado na manhã que despontava, o vulto, na verdade Fred o ex-vagabundo, correu para o carro estacionado 200 metros abaixo do Hotel Paris. Pouco habituado a algo mais que estender a mão, tremendo de excitação, foi com dificuldade que conseguiu tirar a barba e cabeleira postiças. Fumou um cigarro e depois, já mais calmo, falou para o telemóvel. “Consegui. Não tenho a boquilha mas tenho o microfilme. Depois conto os pormenores. Vou seguir agora para o Porto”.
Uns quilómetros antes da estação de serviço de Leiria, tocou o telemóvel. Era a Summer. “Fred, onde estás? Queres vir tomar o pequeno-almoço comigo?”. “Eu estou em viagem Summer, estou a chegar a Leiria”. “Mas que coincidência Fred! Eu estou parada na estação de serviço de Leiria, sentido sul norte. E tu?”. “Eu vou nesse sentido. Vou parar quando aí chegar”.
Há já algumas semanas que Summer desconfiava do enriquecimento súbito de Fred. Vagabundo e mendigo, com tenda montada a algumas dezenas de metros do Caneco, Fred, de uma dia para o outro passou a aparecer melhor vestido abandonando a tenda onde habitualmente dormia.
Obsessa desde esse dia, não mais deixou de seguir todos os passos de Fred, prescindindo mesmo de passar a noite de fim de ano com o marido e amigos para poder observar todos os seus movimentos. Através da cobrança de alguns favores a amigos da PJ, conseguiu, apesar do som não ser perfeito, escutar as conversas de Fred ao telemóvel. Numa dessas conversas, ao ouvir a palavra ‘microfilme’ em poucas horas arranjou um, e, confiando na sua sagacidade, pensou que, mais dia menos dia, haveria de conseguir apanhar aquele que realmente lhe interessava.
Ao ver Fred colocar a barba e cabeleira postiças, entrar no Hotel Paris e poucos minutos depois sair de lá a correr, percebeu que o dia tinha chegado. Primeiro seguindo o carro que Fred conduzia, depois ultrapassando-o, fez o telefonema convite para o pequeno-almoço. A troca dos microfilmes foi fácil, aproveitando os minutos em que Fred foi à casa de banho deixando o casaco na cadeira.
Após ter o que queria, Summer rapidamente se livrou de Fred alegando que tinha de estar em Coimbra daí a uma hora para ir ter com alguns amigos.
Ao chegar ao Porto, com as estradas e ruas excepcionalmente limpas de carros, Fred em poucos minutos alcançou a casa de PalUP. Este e Marga, dançavam alegremente pendurados numas bolas de dança recém compradas, festejando antecipadamente a posse do microfilme. Não tinha sido fácil convencer Fred a trabalhar para ambos, mas o esforço dispendido começava a dar os primeiros frutos.
PalUP e Marga tinham-se tornado amantes umas semanas antes, não por amor ou paixão súbita, mas por convergência de interesses e como forma de se vigiarem mutuamente. Ambos desejavam o que o outro possuía: PalUP absorver a Academia Portucalis na UP e Marga ser também a reitora da UP e desta forma controlar a construção dos novos edifícios em skybox.
Ao chegar a casa de PalUP, Fred entregou-lhe o microfilme e após contar as várias peripécias por que tinha passado, desde o Hotel Paris até ao pequeno-almoço com a Summer, não aguentando mais o peso dos nervos e do corpo, foi dormir.
PalUP, excitado, foi abanar Marga, que semi crashada, ainda estava a dançar sozinha pendurada nas bolas ao som de uma música dengosa.
Quando finalmente Marga conseguiu fazer o stand-up e sair das bolas e ver o microfilme, ficou com vontade de não ter chegado a sair delas. Tinham sido enganados. O microfilme apenas continha uma receita para fazer pastéis de bacalhau (bastante original e apelativa por acaso) e pensaram de imediato nas duas hipóteses possíveis: o microfilme teria sido trocado pela Summer durante o pequeno-almoço com Fred ou este estava a fazer jogo duplo.
Para aliviarem a frustação e pensarem nos passos seguintes, PalUP e Marga passaram o resto da manhã a experimentar a receita, fazendo dúzias e dúzias de pastéis de bacalhau.
Baralhar e dar de novo (Romance de Ficção?)
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“Posted by Elora on December 20, 2007
Caro Fokas: Estou desesperada e já não sei a quem recorrer. Pode parecer paranóia mas sinto as minhas horas vigiadas, os meus caminhos repisados, os meus olhares desviados. O ambiente em Laguna parece perder a vivacidade que lhe é característica e os roxos e laranjas da decoração empalidecem e debotam à medida que a ansiedade vai roubando ar ao meu peito.Tudo começou no dia do Baile do Caneco. Foi um dia em que o Frio parecia dominar Laguna e por entre o despe do aniversário da Blue e o veste para o baile, a minha atenção espalhava-se pela praia, saltitando entre os clientes habituais que entravam e saiam, misturados com os peeps do costume. Um avatar desconhecido, com nome de agente secreto aproximou-se de mim e desatou a elogiar-me a forma como se sofresse de miopia aguda. Só o que me faltava para completar o caos em que giravam os meus pensamentos, pensava eu enquanto geria a troca de línguas, entre voice e texto, e revolvia o inventário à procura dos sapatos perfeitos.No meio da confusão que dominava o bar, recebo uma mensagem que diz apenas: “Isto combina com o teu vestido.”, acompanhado de um ficheiro. Abro o ficheiro e verifico conter um conjunto completo de jóias de um designer famoso, Random Calliope. Respondo rapidamente ao IM: “Quem és tu?”. E recebo como resposta: “O meu alt conhece-te…”Procurei visualizar o avatar em questão… Tratava-se de um homem, alto, moreno e vestido com um smoking irrepreensível. AnTonis Tereshchenko de seu nome. Encontrava-se acompanhado por uma mulher alta e linda, loura, vestida com um enorme casaco de peles branco e que, no momento em que olho, se eclipsa em pleno ar. Espera, gritei enquanto o vejo desaparecer também.Recorro ao perfil que, como de certeza já verificaste, não diz absolutamente nada. Envio-lhe outra mensagem, já completamente à nora: “Mas porque é que me deste isto?” e recebo como resposta: “Pergunta ao Nuno.” “Qual Nuno?” escrevo freneticamente, a conter a respiração. O meu irmão Nuno, que tinha acabado de sair do bar, andava estranho já há uns dias e o meu coração batia mais depressa com a ideia de que o meu irmão pudesse estar metido em sarilhos.“Second Life: User not online – message will be stored and delivered later.” Veio a mensagem de resposta. Não voltei a ver o dito AnTonis, não responde às minhas mensagens, nem ao meu pedido de amizade e nunca aparece no search como estando on-line. Quanto ao meu irmão Nuno, seguiu o mesmo caminho. Desde esse dia nunca mais o vi, deixou de responder às minhas mensagens e de frequentar o bar. No dia dos anos dele, dois dias depois, furiosa com a falta de respostas, apaguei-o da minha lista. Eu sei que foi um erro, mas estava cansada de vê-lo a entrar e a sair sem nunca me responder… Agora nem sequer sei quando está on-line. Estou preocupadíssima e só tu me podes ajudar. Eu sei que tens contactos dentro do Liden Lab que te podem dar mais informações sobre o dito AnTonis. Quem é o alt dele que me conhece? Sei também que andas metido com uma miúda que está à frente do departamento da Polícia Judiciária no SL. E sei que foste tu que despoletaste os acontecimentos que levaram a que, há uns dias atrás, fosse encontrada uma loura nua numa piscina em Laguna. Por tudo isto sei que apenas tu me podes ajudar. Conto contigo,
Elora.”
Este foi o “mote” para aquela que considero a 2ºs novela do blog de amigos do Tagus. A partir daí desencadeou-se tanta criatividade, que começou-se a sentir a necessidade de, à semelhança das Crónicas do Othelo, terem um espaço próprio. Pensei… e na verdade sem grande (ou nenhum) feedback dos autores criei-o (estamos sempre a tempo de mudar….). Recolhi tudo que penso ser relacionado do Blog (espero não ter escapado nada…). E coloqyei neste word o histórico, para uma leitura fácil e corrida dos posts atrasados. Agora…. é a vossa parte. Convido a quem estiver interessado a “coordenação destes autores” . Talvez alguém mais “de fora”, ou algum dos “idiotas” bem falantes que ja contribuiram para a história. A tarefa (complicada) seria- rever o word, eventualmente alterando cada post (com a permissão dos donos) de modo a que a história bata sempre certo;- coordenar os autores de modo a que não se acabe por pôr dois posts a responder ao mesmo (dividindo a história) a não ser que não tenha nada a ver o seguimento- adicionar e retirar autores a este blog, uma vez que nem todos os autores do outro seriam autores aquiÀ pessoa responsável pela coordenação seriam dados todos os poderes que poder (inclusive admistração deste blog) para que pudesse estar por dentro de tudo.
Nota: não incluí as Crónicas do Othelo pois, uma vez que já tinham um background, espaço próprio e uma história pensada, poderão ser consideradas histórias em paralelo. Eu sugeria que se mantivessem separadas, e eventualmente deixar para o final, a cargo do Othelo e do/a coordenador/a desta outra saga, a eventualidade de se explicar os elos de ligação entre as duas.
Mas pronto. É só mesmo uma sugestão. Outras melhores serão bem vindas
ps. Ao futuro coordenador, agradecia que semanalmente colocasse um post no Blog do Tagus com os posts da Semana
Ficheiro: