As Nossas Crónicas


Maio

Posted in baralhar,crónicas por Fokas Greenwood em Junho 12, 2008
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Havia e há em todas as famílias segredos que nunca podem ser divulgados.

O “existir-para” significa um empenhamento emocional com o Outro antes de nos comprometer de vez. E nesse espaço do “não dito” ( em que o leitor determina  o seu próprio itinerário sem o mais pequeno auxílio…) é que as coisas se complicam…

Baralhando e dando de novo….Klara Allen tinha duas filhas lindíssimas e cultas. Klara tinha transmitido às duas, aquele sentimento de superioridade alemão que as resguardavam de encontros inesperados e pouco saudáveis com a pseudo elite intelectual portuguesa.  As moças eram conhecidas pelas freiras da Ericeira… 

Klara Allen abria apenas a sua casa a famílias com consagrados pergaminhos para as suas tertúlias culturais. O sarau passavasse normalmente no salão da casa iluminado por um lustro esplendoroso onde as meninas, deliciavam aos convidados com as seus talentos e generosas graças. Isabella a mais velha era uma exímia pianista e a mais nova Esperanza, mais dada à literatura e à poesia.

Foi numa noite de Primavera que na companhia do Jovem oficial que tive oportunidade de entrar pela primeira vez em casa de Klara que nos recebeu com toda a gentileza. O apelido Greenwood  e a minha amizade com os Bates ajudavaram obviamente…

– Fokas Greenwood? Que engraçado…tem família na Grécia? Conheci em tempos uma família Fokas em Salónica, judeus sefarditas, excelentes pessoas e gente muito distinta. São seus parentes? O comendador é um homem charmoso e a sua esposa…como é que se chama…sim…Júlia…Julieta…sim, a Julieta… uma senhora deliciosa. Riquíssimos e muito educados. 

Apanhado de surpresa, hesitei e respondi sem pensar… sim são meus tios-avós…de S. Brás de Alportel. (Confundirem-me com um grego, nesta fase do campeonato… era o pior que me podia acontecer).  – Mas fixaram-se na Grécia há uns anos…os negócios..e a política sabe…

(To be continued in http://tagus.wordpress.com/ )

 

       

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Working class hero

Posted in baralhar,crónicas por Fokas Greenwood em Abril 28, 2008
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Março é um mês terrível para ir  até ao Algarve! Chove muito e os ingleses tomam banho em Albufeira, despejam grades de cerveja com a boca cheia de camarão! Mas serviço é serviço… e brincar com o Coronel Bates, sabia já eu por experiência própria… era  pior do que colocar as mãos na brasa!

 

As minhas ligações com o MI5 ( Portuguese section) datavam do Verão quente de 75, quando andava a vender pulseiras de missangas em frente ao Casino de Armação de Pera. Dias de calor imenso e de grandes ganzas, apaixonado pela irmã do Zé Pedro, um dos meus companheiros de noites de praia. Adormecíamos ao som psicadélico do “Atom Heart Mother” e dos Doors…. e távasse mesmo bem.

Uma manhã bem cedo… fomos acordados por dois homens de blusão de couro e com armas na mão. Olhei em volta e verifiquei que os meus companheiros ainda dormiam….Ia haver cena se ainda houvesse alguma coisa para fumar…o que francamente duvidava. A noite tinha sido longa e fixola, divertidos a jogar à forca, desporto intelectual de grande nível…  com os nomes dos vocalistas de bandas de rock . Quem era a vocalista que começava por N…que dormia com o baterista? Dois nomes V…U…O Zé P. que nessa altura já era roqueiro ganhava quase sempre. – Nico!!!! Respondia sem hesitar!!! E assim se passavam as horas…entre mais um charro e novas gargalhadas!

 

O pai do famoso Coronel Bates, tinha comprado uma propriedade em Silves onde normalmente passava as suas férias. O filho mais velho, o jovem e brilhante oficial, matemático de carreira, possuía da parte da mãe, sangue sefardita e  tinha vivido toda a sua juventude em Marrocos. Dominava o inglês e o árabe como ninguém. O pai, o famoso arabista W. H. Bates tinha já uma longa  relação com os serviços secretos britânicos desde os tempos de Casablanca. O filho acabou naturalmente por seguir-lhe os passos. Foi ele quem delicadamente, com a arma na mão, me dirigiu a palavra. – Tudo bem por aqui? Os teus amigos ainda estão a dormir?…grande noitada! Fazem bem… quando era mais novo também gostava de dormir na praia!. Olha lá ó John Lennon dos Olivais…viste alguma coisa estranha na praia? Esta madrugada…barcos…carga…não deves ter visto nada…claro!

– Não…respondi com algum receio…não se passou nada…pelo menos não vi nada de estranho! E duvido que tivesse havido alguma coisa…estivemos a noite toda aqui!

O oficial…baixou a 9 mm e sorriu… Sim, tens razão, a praia estava vigiada! Mas se por acaso te lembrares de qualquer coisa…o meu nome é Bates….Ibrahim Bates! O teu é?

– Fokas…Greenwood e estes são todos meus amigos.

  Sim…sabemos muito bem quem são os teus amigos…

 

(à suivre…)

Rumo ao Sul

Posted in baralhar,crónicas por Fokas Greenwood em Março 12, 2008
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Eram para ai sete e picos, oito e coisa, quando chegamos ao Monte dos Vendavais. Tive que acordar a Philbin com jeitinho para não começar logo de manhã a ouvi-la aos gritos… A festa na casa fantasma estava para durar…Música e luzes acesas, risos e gritos, arrastares de cadeiras e na piscina,  a “Perfect day” a começar!

 – Maggie, chegámos! Vou entrar pela porta da cozinha, imagino que estará apenas alguém a lavar a loiça ou quando muito a fazer café!

– Está bem…Fokas…deixa-me mais uns minutinhos…vai sim! Sim…vai andando…até já!

A Philbin mal virei as costas voltou a adormecer colada ao vidro do Austin Martin do paizinho…estava lixado… teria mais uma vez que actuar sozinho. O “Stairway to heaven” a tocar e a voz do “Peixe pró gato” com uma voz já bem aviada…

 

– Fokas…estás-me a ouvir??? Fokas!!! Estás-me a ouvir man ??? Temos novo cenário! ouve com  calma e atenção! O assunto é sério! O nosso Primeiro enviou um SMS aos gajos do GMRP para libertarem “a Doutora que têm sempre razão”, em troca, uns lugares importantes na administração da CGD para os chefes e para os outros…o comando de uma missão militar na Geta! A tua amiga Elora acabou de ser nomeada “Senhora Ministra”!!! A ministra Afro parece que mandou o nosso Primeiro à merda! Grande confusão que vai em Lisboa! A noite aqui tem sido de bar aberto e de grande festival!!! Estão uns gajos a escrever já o discurso de posse… vão acabar imediatamente com as aulas de substituição. Os putos vão para casa aprender matemática racional e executar operações do terceiro grau em lindens sem o auxílio de máquinas de calcular!  Os Profs. de Mat vão assumir o controle dos conselhos directivos de todas as escolas do país…é a revolução no ensino em marcha. A tua amiga pelos vistos não só canta bem como encanta! O “Old Spice” e a “Tokyoska” estão na festa em fase final de negociações e mandaram-me dizer que não te querem ver nem de perto nem de longe pelas redondezas.

– Estás a gozar comigo! Só podes estar…A Elora, ministra???

– É melhor bazares daqui o mais depressa Fokas…. digo-te eu!  A Elora já disse que se te vir aqui, vais beijar os pés do M2! Vou desligar… tenho que ir servir o “champagne” na piscina ao pessoal! Sabes que eu até estou a simpatizar com a miúda? Grande mulher!!! Tinhas razão….mas agora faz-me o favor, desaparece por uns tempos! e desligou… o animal. 

   

– Não durmas agora – disse eu sacudindo a Philbin brandamente. – Escuta o que aconteceu, ao lado do que tu já sabias. A Elora é ministra!! Tenho instruções para seguir para o Algarve. Com a nova ministra, deram o caso por encerrado. Queres vir? A June e o Ibra estão à nossa espera… 

Monte dos Vendavais – II

Posted in crónicas,ROMANCE por Margarita em Março 3, 2008

— E é logo pela boquilha que queres que eu comece… És tramado, Fokas. Mas eu conto, porque to prometi.

— Eu, como já deves saber, até porque afirmas que conhecias o paizinho, vivi uma vida de marinheiro. Cada porto, cada nova paixão, sabendo sempre que ao levantar das amarras deixaria ali mais um coração despedaçado com a minha partida. Mas nunca me importei, sabia bem ser idolatrada daquela maneira, além do que a protecção incondicional dos marinheiros que me acompanharam a vida inteira estava garantida. Até que um dia, há mais ou menos dois anos, as coisas mudaram.

— Porquê, foi ele que te deixou e soubeste o que era amargar um abandono?

— Não, Fokas, foi a primeira vez e a última que me entreguei realmente, com consequências esmagadoras para mim.  Conheci-o no bar de um hotel, em Cádiz, uma vez que lá aportámos. Era mesmo a minha cara. O que me atraiu mais foi ele ser meio italiano, como eu. Uma questão de empatia imediata. Quando dei por mim, o quarto em que estava não era o meu e tive a noite mais incrível da minha vida.

— Mas se foi só uma noite porquê essa história toda? Pelos vistos era o costume, não? Seduzires um tipo para o abandonares na manhã seguinte…

— Não, Fokas, aí é que está. Pela primeira vez, pedi ao paizinho para me dar umas férias do navio, deixando-me ficar em Cádiz. Depois logo voltaria para Lisboa. A primeira semana que lá fiquei foi maravilhosa, nunca me tinha sentido tão presa a alguém. Depois ele começou a receber telefonemas e a ter que sair de repente, deixando-me sozinha muitas vezes. Mas voltava sempre, até ao dia da boquilha. Ofereceu-ma durante o jantar, uma boquilha lindíssima que nunca mais deixei até ao dia em que jantei contigo. Naquela noite esmerou-se, apenas para me deixar sozinha na cama e nunca mais voltar. Por coincidência, houve nesse dia um atentado bombista em Espanha e eu tive quase a certeza de reconhecer a roupa dele num dos feridos. Como nunca soube mais dele que o nome próprio, nem nunca me lembrei de perguntar, nunca tive certezas de nada, e voltei para o navio, donde nunca mais saí em porto nenhum a não ser para o estritamente necessário até o paizinho morrer.

— Bem, miúda, isso é que é ter azar. Mas olha, se calhar foi castigo, por teres feito o mesmo a tantos outros.

— Cala-te, Fokas, não achas que já sofri o suficiente? Acelera e vamos mas é procurar a Elora.

O resto da viagem passei-o a dormitar. Voltar a falar naquilo tinha-me cansado. Despertei quando o Fokas me deu um leve abanão, já à porta do Monte, onde reinava a confusão.

Monte dos Vendavais – I

Posted in crónicas,FICÇÃO,HISTÓRIAS,ROMANCE por Margarita em Fevereiro 12, 2008
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Arrependi-me da cena no momento em que saí a porta do tasco. Aquele Fokas afectava-me mesmo, raios. A mim, que tinha decidido eliminar os homens da minha vida de uma vez por todas. Maldito Sítio, maldito vento que ao bater-me no rosto me espevitou a consciência e, simutaneamente, os sentimentos que vinha a tentar esconder.  Infelizmente, o meu mau génio tinha estragado tudo mais uma vez e, para resolver a situação, teria que passar pela humilhação de lhe pedir desculpa. Tinha que arranjar forma de não ter que o dizer por palavras.

Dei a volta e pespeguei o pópó à porta do tasco, em sentido contrário para o lugar do condutor ficar mesmo a jeito. Esgueirei-me como pude para o assento do passageiro, abri a porta e estendi as chaves com a mão assim que o vi assomar à ombreira. Homem nenhum ia resistir àquilo.

O Fokas inclinou-se, espreitou e desatou às gargalhadas.

— És tramada, tu. Primeiro, fazes cenas, e depois tentas subornar-me com um carrito? Vai ser preciso muito mais que isso, Philbin.

— Vá lá, Fokas, estive a beber, e temos mesmo que ir ter com a Elora. Eu cumpro o prometido e ficamos juntos no hotel, na Ericeira.

— Ah, olha para ela tão mansinha agora. Ericeira? Vens tarde, a Elora está muito mais longe. E só vou aproveitar a oferta porque se faz tarde e não é todos os dias que se conduz um bicho destes e também na condição de me contares a história da boquilha. E sem mentiras, estás a ouvir? Se sonho  que estás a mentir, paro o carro, sais e ficas onde ficares.

Quando dei por ela, já estávamos a descer do Sítio, eu ainda demasiado invadida pela raiva por mim própria para poder dizer alguma coisa que não fosse pedir ao Fokas para ter cuidado com o carro do paizinho.

— Pois, disfarça! Pensas que sou o quê? Ou quem? Conheci muito bem o teu pai, minha menina. E agora começa a abrir a boquinha, porque a história deve ser comprida e eu quero saber tudo quando chegarmos à Vidigueira. Vá lá, confessa, de onde é que veio a boquilha?

(continua)

E quando as nuvens partirem…

Posted in baralhar,crónicas por Fokas Greenwood em Fevereiro 11, 2008
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A Philbin de repente desapareceu aos círculos, a transbordar de cerveja e percebes, e enfiou-se numa casa de banho bem manhosa como é hoje todo o “Sítio”… já agarrada a um telemóvel topo de gama retirado com um passe de mágica daquela blusa vermelha, de um peito sem soutien… 

Era altura de eu pedir a conta e encerrar a estória triste de um caderninho idiota…altura certa… porque tinha também o meu a tocar aos berros o “Stairway to heaven”!!!

– Fokas…é o Ramirez, pá!… Estou com a miúda que andas à procura na “Adega Velha” a servir copos de poejo! Está com malta de Reguengos que conheço há anos…. Parece drogada com medronho … mon… em Mourão a cantar completamente desafinada o “Je ne regrette rien”…! Uma cena do caneco acompanhada pelo Zé das Escorinhas que ainda julgava estar em Paris a trabalhar na “poubelle”! 

– Ramirez???…tens a certeza que é a Elora??? – Não queria acreditar no que o Ramirez me estava a contar. Mas sabia que Elora aterrara de paraquedas recentemente naquela região… Podia muito bem ser ela! 

– Sim…mon… parecida com a tua descrição…tipo Blimunda…óculinhos …pá! Poucas mamas e boa bunda! Deve ser a tua gaja… Fokas!

– Ramirez !!!..ouve-me bem…não larges os gajos agora…eu vou ter contigo logo que possa. Conheces o  “ VilaVelha”…o restaurante ali mesmo na praça, no centro da Vidigueira? Arma-te em “finol” e convida toda a gente! Telefona também para o Prof. e reserva o monte dos Vendavais para os gajos ficarem à vontade nos copos e nas cantorias… Apanhamos o grupo todo lá…

– És mesmo um estupor de avatar Fokas…não sei porque tenho andado a perder tanto tempo contigo!!! (A Philbin tinha-se sentado ao meu lado a rir como uma tonta!) Julgavas que levavas a filha do almirante para a Ericeira sem mais nem menos? És um ingénuo e um parolo sem futuro! Bem me dizia o paizinho para nunca me meter com espiões rascas, muito menos com detectives de 3ª classe!!! Sabes o que me apetece fazer? …e sem esperar uma resposta… encaixei mais duas bofetadas da Philbin, em frente de toda a gente no café… e fiquei estúpido a olhar para o céu… a ver se as nuvens se disssipavam…

A noite passada acordei com o teu beijo

Posted in crónicas por Fokas Greenwood em Janeiro 29, 2008
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Ai Marieke Marieke… je t’aimait tant…

Entre percebes e gritos, a Philbin lá se foi acalmando. Tive que lhe confessar que o interesse do caderninho era apenas meu e não tendo à mão um exemplar dos “Fragmentos de um discurso amoroso”, tive que improvisar… o que até não foi mau do todo… porque me esqueci de metade do que queria dizer sobre o  ridículo do ciúme, esse sentimento estúpido que me levara a fanar-lhe o caderninho vermelho. 

E a Philbin debaixo daquela couraça de “allumeuse “ era afinal uma mulher sensível que conhecia o amor. Sabia que Eros não era um deus nem um homem mas um demónio, um espírito que vive entre os deuses e os mortais e cuja missão é simplesmente pôr em comunicação e unir os seres vivos. E como eu era o desejante que pede, ela também assumiu a desejada que dava.

O fim da tarde no “Sítio” esperou pelo final da conversa e um pôr do sol  magnifico contemplou  e selou a nossa cumplicidade. Ambos já tínhamos conhecido esse sentimento de felicidade e não desejávamos mais do que aquele momento… infinito enquanto dura. Saímos abraçados do miradouro mágico com um destino traçado… enquanto houvesse estrada para andar… a Elora não estaria desgraçada!

– Ouve-me bem agora… e pára de olhar para as minhas pernas! Sinto-me incomodada…Fokas! Vocês homens só pensam nisso a toda a hora… que paranóia de bichos! Mas a Philbin não conseguiu deixar escapar um ligeiro sorriso enquanto esboçava a sua tradicional cara de má… sinal de que a mão estava agora do meu lado.

– Vá Magggie…a minha proposta é honesta…vamos até à Ericeira…jantámos no “Furnas” um  peixinho grelhado e passamos uma noite memorável no Grande Hotel!

Juro-te que não te vais arrepender! A Elora ainda sabe cantar Brel e nós vamos acompanhá-la ao piano!

Tempo

Posted in baralhar,crónicas,FICÇÃO,HISTÓRIAS,ROMANCE por Margarita em Janeiro 25, 2008

O tempo é sempre relativo. Se temos pressa, o seu correr parece-nos lento. Se estamos à vontade, sobra sempre. A caminho da Nazaré, pela auto-estrada e a uma velocidade inadvertidamente estonteante, era-me de certo modo indiferente a hora a que iria chegar, apesar de ter combinado aquele encontro com o Fokas e de querer resolver o assunto de uma vez por todas.
Depois da última vez, tinha tomado a firme decisão de não me voltar a envolver com ninguém, mas os recentes desenvolvimentos, a par das desconfortáveis sensações de fragilidade que o Fokas me causava, faziam com que não tivesse vontade nenhuma de o reencontrar. Mas ele tinha um dos meus preciosos caderninhos e isso era para mim ainda mais importante.
O que continha as informações sobre todo o caso Elora estava, no entanto, comigo. Mas este caso tinha confusão a mais para poder ser resolvido só por mim e, apesar de tudo o que tinha acontecido, já só confiava no Fokas. Parecera-me sincero quando disse que o tinham obrigado a fazer o que fez para me roubar o caderninho. De qualquer forma, e apesar de ainda ir precisar dele, um dia pagaria por isso, e bem caro.
O tempo é mesmo relativo. Pouco tinha andado desde a última paragem e porém houvera espaço para recordar toda a última semana, pormenorizadamente: as reuniões com o Old Spice em casa da Poulana após a notícia do desaparecimento da Elora, o Réveillon, a noite na pousada, a traição… Apenas em alguns minutos, recapitulei dezenas de factos, conversas e acontecimentos… Somando tudo, o resultado era assustador e a Elora corria verdadeiro perigo.
Enquanto virava na saída de Santarém, porque a minha natureza de marinheira me deu uma vontade súbita de seguir a estrada junto ao mar , recordei o que sabia sobre a personagem… Jovem, cheiinha, ruiva e, sobretudo, inteligente. Brilhantemente inteligente, apesar de algum mau feitio residual, a que todos os que são verdadeiramente geniais estão sujeitos e aos quais tudo perdoamos, de tão fascinados.
Não acreditava ainda que tivesse sido atraída para uma armadilha, pois dificilmente se deixaria surpreender; antes pelo contrário, teria confundido os facínoras de tal maneira que estes desistiriam do seu projecto, quanto mais não fosse com as surpreendentes bebidas que preparava. Não, a Elora fora apanhada à traição e isso significava que corria muito perigo, principalmente porque eu desconfiava que tal não se devia se não a um estratagema preparado para apanhar outra pessoa, fazendo dela moeda de troca. E essa pessoa, tinha, ao que eu sabia, uma dupla identidade, e tinha sido casado com a Elora. Descobrira-o numa velha revista de cabeleireiro, em que identificara a jovem noiva Elora pela cor flamejante do seu cabelo e pela exuberância do seu perfil. Radiosa como qualquer noiva, destilava felicidade, apesar do arco-íris que pairou no céu durante toda a cerimónia e que anunciava, certamente, chuva. O noivo, sempre de óculos escuros, era discreto e descobri, pelas legendas das fotografias, que se chamava Lourenço, nome que viria a ouvir mais tarde, debaixo de grande secretismo, em casa da Poulana.
O tempo é verdadeiramente surpreendente e, todas estas incursões sobre os segredos da Elora demoraram-me apenas o tempo de chegar pela Estrada Nacional até São Martinho do Porto. Digna filha de um marinheiro, eu tinha, como todos os dessa classe, a fama de deixar um amor em cada porto. A fama e o proveito, pois não houve cais em que o navio atracasse em que não deixasse um amor de cabeça perdida. Não que eu os procurasse, mas acabava sempre por claudicar nos braços de um ou outro nativo mais afoito e bem-falante. E, certa da protecção do paizinho, pouco me importavam as ameaças sempre que tinha que partir.
Apesar de não ser um porto digno do nome, São Martinho era um local onde eu costumava atracar durante as férias, e também o local onde deixei atracado o meu coração. Foi lá que conheci aquele que um dia mais tarde me viria a abandonar e cujo nome não me atrevo sequer a repetir. Não querendo sucumbir às dolorosas recordações, acelerei dali para fora, ao encontro do Fokas.
Quando há tempo, as distâncias são muito relativas e dei por mim já na Nazaré, muito antes da hora marcada. Arrependida da minha fuga repentina daquela baía cheia de recordações, optei pela estrada que me afastava do centro e dirigi-me ao Sítio, onde tencionava, para além de olhar uma vez mais para o horizonte que tantas vezes tinha admirado ao luar confortavalmente protegida da nortada por certo abraço inesquecível, matar a sede e comer qualquer coisa. Nada como uns percebes e uma imperial para acalmar as dores de um estômago cujo conteúdo se reduzia a um café duplo, bebido há muitas horas atrás. Estacionei e dirigi-me à cervejaria mais próxima.

Endechas a Bárbara Cativa

Posted in crónicas por Elora em Janeiro 22, 2008

Caro Fokas:

Não tenho forma de saber se esta mensagem te chegará. Encontrei este telemóvel atrás do autoclismo, mas há pouca rede e tem pouco saldo. O teu é o único número que sei de cor e está desligado.

Não sei onde estou, embora sinta frequentemente o cheiro a coentros e a comida se encontre infestada deles. Não sei quanto tempo passou desde que fui sequestrada.

Os coentros devem servir para disfarçar o sabor das drogas que colocam na minha comida. Ando num estado de perpétua ressaca, como se bebesse diariamente maus whiskeys.

Não sei o que tenho feito, a realidade mistura-se com os sonhos num contínuo pesadelo, do qual nunca acordo. As caras e as vozes fundem-se e já não consigo distinguir amigos de inimigos.

Vejo frequentemente a minha cara com uma voz diferente, como se se tratasse de um espelho com mau playback. Oiço também a minha voz a cantar, desafinada como sempre, músicas variadas.

Tão depressa canto Vitorino ou Zeca Afonso, como me oiço cantar velhas músicas de Frank Sinatra e, num caso concreto em que me sentia mais lúcida, Jacques Brell.

O meu carcereiro é um tipo alto e musculado de cabelo branco e desgrenhado, com piercings nos lábios e uma gargalhada cruel, mas percebo que não é ele quem manda. Não sei quem é.

Oiço com frequência as vozes do Rui Tigerpaw e do Portugal Decosta, mas não sei se estão envolvidos ou se estão presos como eu. E depois há uma voz de mulher, aguda e perfurante, que percorre os meus dias com ordens em frases curtas: come, veste isto, canta.

Sinto-me a desesperar. O único alento que me resta está na sensação de ver, por vezes, entre a confusão das caras que me observam, a face enevoada do Imso, ao som desafinado de um Milord da Piaff.

Encontra-me Fokas. Não sei a quem pertence este TM, mas encontro os seguintes nomes na memória Afrodite, Freddix, K., Marga, Margarita e Rui.

Caderninho

Posted in baralhar,crónicas,FICÇÃO,HISTÓRIAS,ROMANCE por Margarita em Janeiro 15, 2008

As decisões precipitadas, filhas legítimas de um mau génio que devo ter herdado da minha mamma
siciliana, têm frequentemente os resultados mais inesperados, e dei por mim a ter que sair da auto-estrada em Vila Franca sob pena de vir a ter que empurrar o carrinho por ali fora. Na estação de serviço, aproveitei para ir à casa de banho enquanto um rapazinho vestido de campino e de olhos esbugalhados me atestava o depósito. Ao passar por mim, uma criatura avantajada, usando uma t-shirt com as letras AJC cruzou-se comigo e, para evitar o contacto com aquela barriga proeminente e aqueles braços arrepiantemente peludos, dei um salto para o lado, acabando por rasgar o vestido na porta. Começava bem, este ano, estava a ver que sim.

Ao procurar na mala uma roupa para me mudar, descobri o motivo de toda aquele esquema engendrado pelos meus supostos amigos: roubarem-me o famoso caderninho. Então ele era isso, tudo pelo mais precioso e secreto bem da Philbin.

Tolos. Mal eles sabiam que havia dois e que o que me tinham roubado não era mais que aquele onde tomava as notas do que queria comprar sempre que ia a uma passagem de modelos ou via uma revista de moda. Andava sempre comigo, até para não perder o rasto aos meus conjuntos preferidos. De depósito cheio e roupa impecável, meti-me ao caminho, não sem antes ter enviado uma mensagem em resposta a um telefonema do Fokas que, obviamente, não atendi.

“Fokitas…és um querido, mas meninos como tu… como eu ao pequeno almoço! Assinado Philbin”

Alguns quilómetros à frente, nova tentativa do pinga-amor e, curiosa para conhecer a explicação daquele estratagema todo, atendi-o.

— Maggie, Maggie, desculpa-me. Fui obrigado.

— Em primeiro lugar, depois do que me fizeste não me chamas Maggie. Aliás, vais explicar-me bem explicadinho tudo o que aconteceu ou sabes o que te faço. Já ouviste falar do outro, não ouviste? Que ficou sem os…

— Err, err… Mas Maggie, sabes que te amo e que nunca te faria mal.

— Já fizeste! Eu quero o caderninho de volta ainda hoje. E não estou a brincar. Onde é que tu andas?

— Estou em Barrancos.

— Então pega nesses pés e desata a correr. Encontramo-nos em Leiria, às seis. Não digas a ninguém. Sei coisas sobre a Elora. Queres ou não queres encontrar a miúda? Ah, traz o caderninho e pode ser que não te arranque nada.

Sabe bem ter um homem assim nas mãos. Murmurou um “Sim, Maggie” e eu tive a certeza de que não falharia nem por um segundo. Coitado, se eu lhe tivesse dito que o caderninho roubado não tinha qualquer importância e que o verdadeiro estava escondido em lugar seguro no carro… Mas estes segredos não se revelam e ninguém tinha que saber que todos os dados que tinha sobre o caso Elora estavam bem guardados. Eu não tinha um Aston Martin só para dar nas vistas. Tinha herdado aquela preciosidade da Guerra Fria do paizinho, que o tinha recebido de presente de um riquíssimo armador grego como paga de um favor. O pópó, como o Old Spice lhe chamara, estava todo artilhado e possuía tecnologia tão avançada para a época que se mantinha actual.

Baixei a capota e voltei a entrar na auto-estrada.

Continua, por Fokas, em Melampus.

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